A valorização da identidade e dos saberes tradicionais da Amazônia, especialmente no Acre, ganha destaque no mercado por meio da Indicação Geográfica (IG). Exemplos notáveis incluem a farinha de Cruzeiro do Sul e o açaí de Feijó, ambos do interior acriano, que estão sendo apresentados no Amazônia Summit 2026, evento que ocorre de 17 a 19 de setembro na Universidade Federal do Acre (Ufac), em Rio Branco.
O que é Indicação Geográfica (IG)
A Indicação Geográfica (IG) é um reconhecimento que associa produtos e serviços às características e à identidade de uma região específica, valorizando seus recursos naturais, tradição e o conhecimento dos produtores. No Brasil, esse registro é regulamentado pela Lei da Propriedade Industrial nº 9.279/1996 e pela Portaria INPI/PR nº 04/2022, sendo concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). No evento, a IG é apresentada como uma ferramenta para reconhecer a origem e as qualidades únicas dos produtos, contribuindo para a agregação de valor.
Farinha de Cruzeiro do Sul: Tradição com Selo de Qualidade
José Oliveira do Nascimento, produtor de mandiocultura há 35 anos, detalha o processo de reconhecimento da farinha de Cruzeiro do Sul. A IG, concedida em 2017, contou com a participação da Central das Cooperativas do Juruá, que representa cooperativas de cinco municípios da região. Nascimento explica que a criação da central foi fundamental para padronizar a produção e alcançar o selo.
“A Indicação Geográfica trouxe a rentabilidade. O Sebrae auxiliou muito nessa parte para agregar valor nessa farinha. E hoje a gente tem bons resultados.”
José Oliveira do Nascimento, produtor
Além dos ganhos econômicos, o processo de IG impulsionou a adoção de boas práticas de fabricação e a padronização, permitindo que a farinha mantenha sua qualidade por até dois anos. O selo também serve como um diferencial, garantindo a autenticidade do produto de Cruzeiro do Sul frente a outros comercializados na região do Vale do Juruá.
Açaí de Feijó: Da Tradição Familiar ao Reconhecimento Nacional
Em Feijó, a história do açaí está profundamente ligada à cultura local. Antônio José da Conceição, filho de produtor e membro da Cooperativa de Produtores, Coletores e Batedores de Açaí de Feijó (Açaí COOP), relata como o açaí, inicialmente para consumo familiar, ganhou reconhecimento. A criação do Festival do Açaí em 1999 foi um marco na divulgação do produto. Após interrupções pela pandemia de Covid-19, o processo de busca pela IG foi intensificado em 2021, culminando no reconhecimento em 2023.
“Foi reconhecido através de tanto trabalho, tanta luta, e mostrar que o açaí de Feijó é o melhor. É um açaí de origem totalmente extrativista, usado pelas pessoas tradicionais.”
Antônio José da Conceição, produtor
Para Conceição, a IG amplia o reconhecimento e fortalece a comercialização do açaí, que se destaca pela qualidade e certificação de origem. A qualidade é assegurada por capacitações em boas práticas para produtores e batedores, além do acompanhamento da cooperativa, vigilância sanitária e Sebrae. A profissionalização permite que pequenos produtores modernizem suas unidades de processamento, integrando novos procedimentos sem perder a conexão com a cultura e o território.
Mel de Boa Vista do Ramos (AM): O Doce Reconhecimento da Amazônia
O Amazônia Summit 2026 também apresenta produtos com IG de outros estados, como o mel de Boa Vista do Ramos, no Amazonas. Arlindo de Oliveira Cardoso, apicultor há mais de 20 anos, acompanhou por quatro anos o processo de certificação. Para ele, a IG é o reconhecimento de uma cadeia produtiva que define a identidade cultural do município.
“É uma Indicação Geográfica para um produto, ou até para uma região. Ela é praticamente um sonho de todo o município, de todo um grupo.”
Arlindo de Oliveira Cardoso, produtor
Boa Vista do Ramos tem uma relação histórica com a apicultura, sendo conhecido como “o destino mais doce da Amazônia”, com iniciativas como a “Rota do Mel” e a “Festa do Mel”. A conquista da IG é vista como um esforço coletivo e um reflexo da modernização da cadeia produtiva, com a adoção de rigorosos controles de higiene e uso de equipamentos adequados, desde o meliponário até a extração.