A expansão do greening tem impulsionado a realocação de lavouras de laranja para novas regiões. Em 2025, 50% das mudas cultivadas em São Paulo foram destinadas a áreas fora do tradicional cinturão citrícola, com destaque para Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás.
Conforme relatório do Itaú BBA sobre as perspectivas da safra de laranja, a participação da região produtora tradicional de São Paulo, Triângulo e Sudoeste Mineiro no recebimento de mudas diminuiu de 91% em 2023 para 66% em 2024, e agora para 50% em 2025. Desse total enviado a novas fronteiras, 49% foram para Minas Gerais, 28% para Mato Grosso do Sul, 10% para o Paraná, 7% para Goiás e 6% para outros estados.
O banco aponta que, em regiões com alta incidência da doença, a contenção da disseminação é mais complexa, incentivando os produtores a estabelecer novas lavouras fora das áreas habituais.
Este deslocamento não é um fenômeno recente. Em maio de 2025, o Rabobank projetou que três dos novos estados receptores poderiam concentrar um terço dos pomares até 2028.
A incidência de greening tem crescido significativamente. De acordo com dados do Fundecitrus, a taxa era de 18% em 2018, subiu para 24% em 2022, 38% em 2023 e 44% em 2024, alcançando 47,6% em 2025.
Em certas localidades, a contaminação é ainda mais severa, como no Sul (74%) e Sudoeste (56%) do estado de São Paulo, incluindo importantes polos como Limeira, Porto Ferreira, Avaré e Itapetininga.
Transmitida pelo inseto psilídeo, a doença bacteriana afeta o desenvolvimento da planta e a qualidade dos frutos, impactando a produtividade. Em situações críticas, é necessária a erradicação completa da planta.
O Itaú BBA destacou em seu relatório que "o avanço do greening deixou de ser apenas uma questão fitossanitária para se tornar um dos principais fatores de elevação de custos e perdas econômicas na citricultura".
O Fundecitrus estima que o greening causou um prejuízo de 49,6 milhões de caixas na safra 2025/26. Com o preço médio de R$ 37 por caixa, isso representa um impacto de R$ 1,8 bilhão na receita bruta.
O Itaú BBA adverte que a migração não constitui uma solução permanente e impõe novas demandas. "A nova configuração geográfica da citricultura pode aliviar a pressão inicial da doença, mas demandará maior controle fitossanitário, irrigação, manejo intensivo e capacidade de investimento para manter a produtividade e a rentabilidade a longo prazo."
Margens Pressionadas
No cenário de mercado, o banco prevê a persistência de uma combinação desfavorável de preços reduzidos e custos elevados.
Quanto aos preços, a projeção do Fundecitrus para a safra 2026/27 é de 255 milhões de caixas, um volume "inferior à safra anterior, de 295 milhões de caixas, e aquém do patamar de 300 milhões considerado ideal para repor estoques e suprir a indústria".
Essa diminuição é atribuída à bienalidade negativa e a um clima "menos propício, com chuvas irregulares, altas temperaturas em fases cruciais do ciclo e ventos intensos que afetaram a florada, o pegamento e o desenvolvimento inicial dos frutos". Consequentemente, a produtividade média estimada registrou uma queda de 14%.
Demanda Fraca
Adicionalmente, as exportações, que representam 95% do suco de laranja brasileiro, apresentaram resultados desfavoráveis.
Apesar do maior volume na safra 2025/26, "as exportações tiveram um crescimento modesto de 3,7%, totalizando US$ 2,54 bilhões em receita, indicando uma demanda internacional menos robusta, particularmente na União Europeia". Os embarques para o bloco europeu registraram uma redução de 5,8% em comparação com o ciclo 2024/25.
No que tange ao consumo, o volume comercializado nos Estados Unidos, outro mercado consumidor significativo, diminuiu 8,3% nas últimas 52 semanas, conforme dados da Nielsen, em decorrência dos preços elevados no varejo.
Segundo a análise do Itaú BBA, a conjunção de maior oferta e menor demanda resultou na queda das cotações. O preço da laranja posta na indústria (valor de referência da caixa colhida e entregue na fábrica de suco) recuou 30% em um ano, enquanto a cotação do suco concentrado e congelado na bolsa de Nova York diminuiu 40%, ambos os declínios registrados no ano findo em 3 de agosto.
Custos em Alta
Em relação aos custos, os fatores predominantes são o greening, os fertilizantes e o diesel, este último impactado pelos bloqueios marítimos decorrentes do conflito no Irã.
O banco explica que o aumento das pulverizações para combater a doença e a alta nos preços de fertilizantes e diesel "elevam despesas que, em grande parte, não se ajustam proporcionalmente à produtividade do pomar".
A capacidade de reação do produtor é afetada, pois "mesmo com a redução da colheita por hectare, uma parte significativa dos custos com manejo, tratos culturais, defensivos, mão de obra e operações é indispensável para manter o pomar produtivo".
Nesse cenário, a rentabilidade torna-se mais dependente de produtividade, escala, irrigação e eficiência operacional. O Itaú BBA conclui que "produtores com menor investimento em tecnologia, manejo e infraestrutura enfrentam maior dificuldade para operar de forma economicamente viável".