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Mudanças climáticas desafiam produção em Rondônia e especialistas apontam bioeconomia e sistemas agroflorestais como caminhos

Em episódio do RuralCast em parceria com a UNIR, professor Isaac Lucena de Amorim e o concluinte de Agronomia Leônidas Migliorini Plaster discutem El Niño, regime de chuvas, água, agricultura e alternativas econômicas para a Amazônia Rondoniense

Redação Rolim Notícias
Foto: RuralCast

As mudanças no regime de chuvas, os períodos de seca mais prolongados, a pressão sobre os recursos hídricos e a necessidade de adaptar a produção rural a uma nova realidade climática colocam a Amazônia diante de um desafio que vai muito além da preservação ambiental. O debate envolve diretamente produção de alimentos, geração de renda e permanência das famílias no campo.

Esse foi o centro da discussão de mais um episódio do RuralCast, realizado em parceria com a Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Participaram o professor Isaac Lucena de Amorim, ligado às áreas de agroecologia, sistemas agroflorestais e paisagismo, e o estudante concluinte do curso de Agronomia Leônidas Migliorini Plaster, que também se dedica ao estudo do café, culturas perenes e questões climáticas.

Logo na abertura, Isaac resumiu a proposta da conversa: discutir as questões ambientais, as mudanças climáticas, o El Niño e, principalmente, as alternativas disponíveis para a região amazônica continuar conciliando desenvolvimento e uma economia forte, especialmente em Rondônia.

Mudanças já são percebidas no campo

Para Leônidas, compreender o que está acontecendo com o clima tornou-se fundamental para planejar o futuro da agricultura. Na conversa, ele chamou atenção para a intensificação das chuvas em determinadas regiões e das secas em outras, criando um desequilíbrio na distribuição da água.

“Se a gente não compreender e entender como sobreviver a essas mudanças [...] a gente observa nos últimos anos a intensificação de chuvas em regiões e secas em outras”, afirmou Leônidas.

O debate destacou que não se trata apenas de tentar impedir imediatamente as transformações climáticas, mas também de desenvolver estratégias capazes de reduzir seus impactos sobre a população e a produção.

“Tem como minimizar os efeitos. É o que a gente tem que tentar fazer o máximo possível”, destacou Leônidas durante a discussão.

El Niño e La Niña ajudam a explicar extremos de chuva e seca

Um dos principais pontos do episódio foi a explicação sobre o funcionamento do El Niño e da La Niña e sua relação com a circulação dos ventos e a distribuição da umidade.

Durante o El Niño, segundo a explicação apresentada no programa, o enfraquecimento dos ventos alísios interfere no transporte de umidade para o interior do continente. Em situações assim, áreas do Norte e do Centro-Oeste podem enfrentar chuvas mais irregulares e períodos secos prolongados.

A discussão também mostrou a importância da floresta dentro desse sistema. A umidade que chega à Amazônia é reciclada pela vegetação e transportada para outras regiões do país, participando do fenômeno popularmente conhecido como “rios voadores”.

Floresta também significa água

Um dos pontos centrais apresentados por Isaac e Leônidas é a relação entre cobertura vegetal e disponibilidade hídrica.

A estrutura das raízes e das copas das árvores contribui para que a água permaneça por mais tempo nas bacias hidrográficas. A água evapora, retorna à atmosfera e participa novamente da formação das chuvas em outras áreas.

“A retirada da floresta afeta o ciclo hidrológico”, destacou Leônidas. Na explicação apresentada no RuralCast, a umidade pode chegar pela região amazônica, passar por Rondônia e seguir para Mato Grosso, Sudeste e outras partes do país.

A disponibilidade de água aparece, portanto, como questão estratégica não apenas ambiental, mas também econômica. O episódio relaciona redução de áreas agricultáveis, erosão do solo, crescimento da demanda por alimentos e pressão sobre as reservas de água potável.

Agricultura precisa produzir e conservar o solo

O programa também discutiu alternativas já disponíveis dentro da própria agricultura. Uma delas é o plantio direto, principalmente na recuperação e utilização produtiva de áreas anteriormente degradadas.

A manutenção da palhada sobre o terreno ajuda a conservar a umidade e reduzir processos erosivos, protegendo justamente a camada superficial, onde está concentrada uma parcela importante da fertilidade dos solos tropicais.

A proposta defendida durante a conversa passa pela utilização mais eficiente das áreas já abertas e pela recuperação de áreas degradadas, inclusive com espécies capazes de combinar restauração ambiental e geração de renda.

Bioeconomia pode transformar floresta em renda

Na parte dedicada às soluções para a Amazônia Rondoniense, o debate avançou para a bioeconomia e os sistemas agroflorestais.

Além de culturas já consolidadas em Rondônia, como café e cacau, foram citadas possibilidades envolvendo açaí, cupuaçu, castanha-do-brasil, andiroba, buriti, copaíba e outros produtos da biodiversidade amazônica.

O diferencial está não somente em produzir ou extrair a matéria-prima, mas em agregar valor. Óleos, manteigas, cosméticos, alimentos processados e outros derivados podem ampliar significativamente o valor econômico da produção amazônica.

Para Isaac, essa é uma das perspectivas mais importantes para o futuro da região.

“A perspectiva que eu vejo para a Amazônia [...] é a questão dos sistemas agroflorestais, aproveitamento dos recursos naturais que nós chamamos de bioeconomia”, afirmou.

Cooperativas e agroindústrias podem deixar mais renda no campo

Outro desafio apontado no RuralCast está fora da porteira: logística, processamento e comercialização.

Produtos amazônicos podem apresentar elevado valor final, mas isso não significa necessariamente maior remuneração para quem produz. Distâncias, estradas, falta de processamento local e presença de intermediários podem reduzir a parcela que permanece com agricultores, extrativistas e comunidades tradicionais.

Uma das alternativas discutidas é fortalecer a organização dos pequenos produtores em cooperativas e estruturas de beneficiamento, permitindo a criação de pequenas agroindústrias e maior agregação de valor antes da comercialização.

As feiras de produtos orgânicos e agroecológicos também foram citadas como instrumentos para aproximar diretamente produtor e consumidor, reduzindo a dependência de atravessadores.

Pequeno produtor precisa de ciência e extensão rural

O episódio termina apontando que adaptação climática e desenvolvimento sustentável não dependem apenas de novas culturas ou tecnologias. Para Isaac, é necessário fazer o conhecimento chegar principalmente ao pequeno agricultor.

“O pequeno produtor precisa desse apoio na pesquisa e na extensão [...] para que possa ter condição de sobreviver no campo com qualidade de vida, gerando renda e sustentando a família”, destacou o professor.

Nesse cenário, universidades, instituições de pesquisa, extensão rural, entidades do setor produtivo, cooperativas e produtores passam a ter papel conjunto.

A discussão promovida pelo RuralCast e pela UNIR mostra que o desafio climático para Rondônia não precisa ser tratado apenas sob a perspectiva do risco. Recuperação de áreas degradadas, conservação do solo e da água, sistemas agroflorestais, bioinsumos, diversificação produtiva, cooperativismo, agroindustrialização e bioeconomia aparecem como caminhos capazes de aproximar duas necessidades que serão cada vez mais importantes para a Amazônia: manter a floresta funcionando e garantir renda para quem vive e produz na região.


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